Acabada de sair a revista nº 6, publicação que a Associação Joaquim de Carvalho, da Figueira da Foz, tem mantido com regularidade, de alguns anos a esta parte, onde continua a divulgação de textos históricos ou de cariz histórico sobre a cidade.
É uma revista importante, porque foge ao habitual, porque versa sobre assuntos pelos quais me interesso. Dai, para além de dar conhecimento da sua saída para as bancas, venho, sem querer parecer um purista nestas questões, e dentro do entendimento que tenho de que a divulgação histórica, cuja pretensão deve também ser a de chegar a um número cada vez maior de leitores, não pode e não deve ceder a facilitismos científicos ou demonstrar desconhecimento dentro da área sobre a qual disserta, após a necessária e sempre útil pesquisa. Chamada de atenção a propósito do texto de Isabel de Sousa, "Figueira da Foz-cidade praia. A "Dolce vita" dos finais do séc. XIX à primeira metade do século XX", publicado na revista, onde a autora aborda uma área a que ultimamente tenho dedicado interesse, e que, por via desse facto, me permite tecer duas criticas sobre ao referido texto. Ao discorrer sobre essa "invenção inglesa", da frequência das praias enquanto locais de terapia e descanso e da sua evolução para locais de prazer e lazer - da "balnearização" da zonas costeiras, como lhe chamo - insolitamente ( e digo insolitamente porque a autora é professora de história) referencia Alain Corbin, como sendo um escritor, colocado lado a lado com autores como Jane Austen, Thomas Man e Charles Dickens, que sendo companhia desejável e nada desprezável para um historiador do calibre de Alain Corbin, tal facto não é correcto. Pese embora, do ponto de vista formal, o historiador utilize como "ferramenta" da sua arte, a escrita, ele não é, na acepção do termo, um escritor. Não querendo entrar aqui em questões de metalinguagem, na verdade toda a obra de Alain Corbin, está inscrita em torno de pressupostos históricos e não ficcionais. Por outro lado referir que os citados escritores falam (ou escrevem?) sobre o, e passo a citar, "encanto da praia e troçam da ideia dos seus frequentadores pretenderem mostrar uma ascensão social pela possibilidade de poderem usufruir desse tipo de lazer", urge mais uma vez discordar. Para Alain Corbin, esse não é um facto risível, mas constatável e factual, que na sua obra "Le Territoire du vide. L'Occident et le désir du rivage 1750 - 1840","demonstra que o universo citado foi uma local "descoberto" pelas elites aristocráticas, que através da prática balnear estabelecem, reforçam, ou pretenderam acentuar a diferenciação social. Corbin, não troça da ideia, realça, isso sim, esse aspecto, em conjunto com o processo evolutivo e capilar que a transmissão desta prática social e mental sofreu ao longo do século XIX, que a descoberta desses "locais vazios", como lhe chama o historiador, representados na beira mar e nas praias do litorais ingleses e franceses, tiveram no prolongamento de um estilo de vida que posteriormente viria a ser imitado pelas classes sociais hierarquicamente colocadas abaixo da aristocracia.
Assim sendo, a escrita, seja ela histórica ou de ficção, deve ter o cuidado de não ludibriar o leitor, que neste caso, em concreto, podem ser os alunos, os colegas, induzindo a erros, que podem ser facilmente corrigidos através de uma leitura mais atenta. "Le rôle de l'historien n'est pas de prévoir l'avenir mais de rétablir la lucidité à l'égard des processus en cours, grâce à sa pratique de la distance temporelle", como refere Alain Corbin.
Terminando, a "Litorais", está nas bancas e a Figueira da Foz, merece ter uma revista assim. Embora o reparo.
