Prosas vadias

A vida em momentos


 


Ninguém nos veem em socorro


Ninguém nos liberta os braços


Há dois milénios que somos


os amantes soterrados


Nem o mais ínfimo agouro


na manhã daquela tarde


Mas era o último encontro


sem que ninguém o sonhasse


E soubermos ir tão longe


tão enlaçados ficámos


que em tudo vibrava o 'sboço


de uma eternidade


Mergulhados neste sono


há dois milénios ou quase


é ainda o dia de hoje


esse ontem tão recuado


Ou foi sonho o dia de ontem


e desde então acordados


nem cremos que à nossa roda


existisse uma cidade


(...)


E nesse ponto de há pouco


eternizamos ficámos


Somos assim um do outro


há dois milénios ou quase


(...)


Antes o fim que nos coube


Se é que fim pode chamar-se


a este abraço em que somos


um só astro uma só ' statua


uma só chama um só tronco


por toda a eternidade


mais livres porque um do outro


um ao outro acorrentados


Ninguém nos venha em socorro


Ninguém nos deslace os braços


 


David Mourão-Ferreira  ou "A Secreta Viagem" (excertos de "Romance de Pompeia" em Ruínas Romanas) de Helena Malheiro, Lisboa, Oficina do Livro, 2001.

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