Prosas vadias

Ano Bom

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Entre aviões, cruzei-me, há dias, com a D. Fazia tempo que não nos víamos, desde que saira da faculdade, ela era ainda caloira. Por sinal, bastante vistosa. Conheci a miúda, rencontro uma mulher feita. Em trânsito para Buenos Aires, contou-me, enquanto nos dirigimos para o restaurante que tinha vindo passar o final do ano, com a familía, em Aveiro, donde era natural.


Tinhamos enfrentado os nossos olhares, mudos e silenciosos, durante as soturnas aulas de Geografia humana, onde acabara por ir parar por opção, em tempos, uma professora no liceu fizera com que passasse acreditar na possibilidade de exisitr uma geografia de carácter humano. Ela começara o curso de geografia, naquele ano, vinda da terra natal batizada como a Veneza de Portugal, durante o Estado Novo.  A Veneza de Portugal, repetia-te, e tu não gostavas, dizia-te que era defeito de historiador, mas tu, futura geógrafa pouco humana, amuavas. No bar da faculdade, manhã cedo, tropeçaramos na mesma mesa, pedi para sentar, anuis-te, olhando para os meus olhos. Os olhos, o olhar, foi durante todos estes anos o facto que, seguramente, me veio mais vezes à memória. Isso e as coxas. Mas essa é outra história. Naquela noite, ambos em trânsito, tu para Buenos Aires, enquanto eu de regresso, a greve dos controladores aéreos, marcada para daí a umas horas, acabaria por adiar o voo para a tarde do dia seguinte. Perguntei se me quererias seguir, que no outro dia te traria ao aeroporto, não tinha compromissos que não fossem inadiáveis. Ligas para casa dos teus pais para os colocar ao corrente, disseram-te que viriam ao teu encontro, recusas-te, dizendo que terias voo no dia seguinte, como contas-te. Fico a olhar para Ti, de pé, contra a multidão que se agitava, smart, na orelha, falando com os olhos.  Depois disses-te que sim, que seria bom, o facto do reencontro ter acontecido de forma inusitada, entre voos, chegadas e partidas, sabendo antecipadamente que a separação seria, de novo, inevitável. A palavra separação sempre fora o sinónimo dessa nossa estranha relação que havia durado quase um ano. Estavamos separados por tudo, tinha casado, de novo, recentemente, tu, que não gostavas de mim, era te veladamente antipático, passas-te a procurar-me, pelos corredores, fumavamos do mesmo cigarro, após aquela manhã em que descobriamos que existiamos. Viviamos separados, encontavamo-nos às escondidas, em locais improváveis, horas, a despropósito. Quando acabei o mestrado abandonei a faculdade definitivamente e a separação foi obrigatória. Percebemos isso bem, que seria até não sabermos mais que nos poderíamos voltar a encontrar. Ninguém iria atrás de ninguém. Naquela última tarde, que nos prometeramos antes da separação definitiva e combinada, na varanda do instituto, num dia de verão, que  debruçados sobre o jardim botânico, percebemos que afinal acabava. Sem email's, sem número de telemóvel, sem conversa. Ponto final. Obviamente que pensei em ti ao longos dos anos, embora já não viva lá, continuo a passar de quando, em quando. Passo pelos mesmos locais, os de sempre numa cidade pequena, que frequentavamos juntos. O café da praça, do outro lado, a pizzaria, o apartamento onde moravas, a tua janela. O lenço, o lenço que deixavas na janela a avisar que não estavas. Janelas, à frente, a daquela senhora que gostava muito de falar contigo, ela debruçada na janela, tu, no passeio. As memórias funcionam com antídoto contra o esquecimento. Isso, dissses-te, embora não te tenha sido fácil. Acabas te o curso nos anos seguintes e foste dar aulas para os Açores, de seguida. Voltas-te, fazer o mestrado, disses-te, era o teu projecto, mas a cidade já te era estranha. recordo me que nessa época fora morar para o litoral, onde trabalhava, mas nunca te abeiras-te deste litoral, estranha em tudo, nos hábitos, que já não eram os teus, nos costumes, como pode tudo mudar em tão pouco tempo


 disses-te.

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