Como português o fado, enquanto expressão dita nacional pouco me diz. Musicalmente o fado repercute meramente uma expressão musical local, lisboeta, sendo cultivado igualmente na cidade do Porto. Mas já se sabe, o Porto não passa de uma versão b " da instituição musical denominada fado. O fado é cultura lisboeta. Ou, na circunstância, expressão, castiça ou popular, de alguns bairros, ou zonas, lisboetas. Assim nunca pode ser entendido como uma expressão musical do país, no seu conjunto. A transformação, enquanto expressão identitária de um povo, deve-se, em grande medida, aos publicitários turísticos de meados dos anos Sessenta. O fado lisboeta será transformado em fórmula nacionalista para encher ouvido a turista ávido em conhecer aspectos pitorescos, ou ditos culturais, do país visitado. O fado é assim uma mera expressão lisboeta. A centrifugação do país no centralismo da capital avançou igualmente no interior dos meandros da sua identidade cultural. Ontem, como hoje. Ora nem Lisboa é Portugal, nem o resto, o que sobra, é hoje já mera paisagem. Hans Christian Andersen descreve essa viagem, interminável, de comboio entre Lisboa e Coimbra, relembrando essa paisagem de "florestas e bosques cerrados" que encontra em 1866. Hoje a desusada expressão alfacinha que afirmava o Portugal do século XX enquanto Lisboa, incluindo o resto do país como mera paisagem ditou em grande medida a dimensão do Portugalinho catita que os nossos olhos e sentidos vão descobrindo hoje, quando galgamos, por auto-estrada, o país de sul a norte em poucas horas. Ou seja este Portugalinho catita tem sido desenhado a régua e esquadro pelos senhores que da província avançam em direcção a Lisboa e ali assentam arraiais. Tudo isto a propósito de quê meu desvairado prosas que vadias pelo fado e acabas no Portugalinho catita? A propósito desta questão. Digam lá se o fado dito, e redito coimbrão, não é bem expressão que pouco ou nada tem que ver com os seus nativos. Com aqueles que aqui mourejaram e mourejam, cidade que foi de moçárabes, dai o mourejar, enquanto sobrevivência a quotidiano difícil. Cidade onde,os tais publicitários de Sessenta, inventaram essa inenarrável figura da Tricana e do Estudante,tendo entre ambos, como pano de fundo, uma fonte. Esconde a construí da metáfora coimbrã as engalfinhadas, embora esparsas, guerrilhas urbanas, violentas, entre futricas e estudantes. Movidas ocasionalmente também por questões que envolviam elementos femininos da população autóctone e estudantes. Assim se estabelecia a diferença entre os ditos coimbrinhas " e os ditos "coimbrões", diferenças medidas pelo trinar não das guitarras, ditas de Coimbra, porque, diferentes no soar das de Lisboa, mas pelo tilintar do metal. Cantavam os "coimbrinhas" desgraças, enquanto "coimbrões", estas gentes vindas de outros beirais, se entretinham, maviosamente e saudosamente a recordar o desfilar as águas do Mondego, em tempos de adolescência. Um dia, todas as historietas comportam sempre um dia, surge no canto coimbrão e não fado como lhe chamam, duas personagens, Adriano Correia de Oliveira e José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos que acabaram por calar para sempre a canção ou fado dita ou dito de Coimbra. A excelência tem limites. Com eles se foi o que nunca fora de Coimbra propriamente. Com eles partiu, como sempre partiram aqueles que não são de Coimbra, o dito fado ou canção de Coimbra. Os que hoje se abeiram da cidade tocam outras músicas, embora em Coimbra já nem a tradição sobreviva.
Coimbrinhas e Coimbrões
Publicado 19-04-2008
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