Habituado a olhar o jornal "O Crime" como o principal órgão de referência sociológica e antropológica sobre o crime em Portugal, o meu espanto hoje mede-se através da observação das páginas principais e interiores dos órgãos de informação ditos, ou auto-apelidados, como "de referência" em prosseguirem nos últimos dias a linha editorial habitual do referido jornal. A recente (recente??? segundo me apercebo "O Crime" tem tido matéria de sobra para com ela preencher as suas páginas ao longo dos anos) onda de criminalidade que assombra o país está na base desta imitação. Conclusão minha. Ora o meu inaudito espanto, pela descarada imitação, penso até que os proprietários do jornal "O Crime" deviam pedir indemnizações pelo facto, prende-se com a dimensão que foi atribuída aos casos mais recentes. Não quero com isto dizer que não devam ser tomados em linha de conta. Não é isso que se pretende afirmar. Na realidade o incauto cidadão perante os factos que se repetem e se acentuam cada vez mais o que pode esperar? Que o Estado zele pelos seus bens e pela sua vida. Aceitemos isso de bom grado. Será o mínimo que os cidadãos podem e devem exigir. O contrato entre os cidadãos e o Estado mede-se pela medida das contrapartidas. O Estado implementa medidas de segurança que fragilizam os nossos direitos de liberdade individual e, das duas uma, ou os cidadãos as aceitam e as consideram para todas as situações existentes e futuras, ou apenas como pontuais e passíveis de serem revistas após o fim do conceito que as originou. Até aqui tudo bem. Devemos perceber e entender o que este ambiente pode despoletar no futuro. Devemos tomar consciência desse facto. Devemos estar inteirados do que pode ocorrer caso algo possa mudar estando tudo previsto nas nossas leis. Ora de facto a turbamulta sempre foi um foco de violência com a qual os Estados sempre conviveram e que de uma forma ou de outra foi sendo resolvida. Só espero que o alarmismo actual não sirva para disfarçar outro tipo de crimes, estes aparentemente menos violentos que os de sangue, porque praticados entre estratos superiores da população, normalmente designados de "colarinho branco", mas não por isso menos nefastos. Tendo ultimamente merecido algum destaque, facto que a mais recente onda de crimes entre a populaça, sempre atreita a crimes passionais e sangue, (o sangue lava a honra, lembrei-me agora) não tenha saltado para as primeiras páginas com outro objectivo. Esperemos que não.
CRIME E SEGURANÇA
Publicado 05-03-2008
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