Prosas vadias

Da História

Clio (1790). Liebighaus, Frankfurt.

Costumo pensar que José Gil, passada que foi a euforia em torno do"Portugal, Hoje - O Medo de Exitir" de 2005, escreveu com a obra "Salazar: A Retórica da Invisibilidade" saída em 1995, uma clara definição do que à pouco foi relembrado pela excelência das BRUMAS, algo que, embora na bruma, se deve tomar em conta para a compreensão do presente e sobre a mentalidade da sociedade portuguesa, quer no seu conjunto, quer no individual.
O condicionamento mental que se pode entrever, gerado, perpetrado, concretizado e profundamente enraizado na sociedade portuguesa pelo regime que fundou, embora ambos (Oliveira Salazar e o regime) não tenham gozado de perenidade, mantém-se. Pense-se uma sociedade manietada pela inércia, conformada, onde, como afirmava José Gil, em 1995, "vivemos num presente que se perpetua. Não se inscreve em nós o futuro nem o passado, a História.". Sabedores de que foi precisamente na recriação e manipulação da História que o Estado Novo, consolidou a imposição de uma determinada ideia para o país, mas também para o viver comum (refiro-me ao país do pitoresco, do viver rural, etc.). O filósofo ainda recentemente expressou na revista Visão,(19 de Julho de 2007), que enquanto sociedade "temos um laço de amor com o salazarismo". Tal frase, retirada assim do contexto, no qual deve ser inteiramente lida, pode parecer a alguns, ofensiva. Embora continue a pensar que é nessa e dessa relação que devemos, na minha opinião (embora saiba que muitos ainda possam partilhar esse laço dito "amoroso"), através da compreensão histórica do salazarismo, entender da nossa actual condição enquanto indivíduos e sociedade. Na realidade é através do exercício de apreensão do passado que se pode realizar esse verdadeiro acto de amor que se consubstancia na tentativa de nos compreender-mos enquanto sociedade e indíviduo. Embora a finalidade última da História esteja nos antípodas da previsão (embora alguns o tivessem tentado), uma sociedade que se interroga para que serve a História, só pode de ser uma sociedade que passa por uma grave crise de identidade.

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