Prosas vadias

Da perca de importância da Cidade de Coimbra


Em 29 de Maio de 1834, por proposta de Dom Pedro IV, referendada por Joaquim António de Aguiar, é publicado o decreto que extingue em Portugal, as Ordens Religiosas.
Na época estava em Coimbra, Alexandre de Herculano, na recolha de quanto era precioso e interessante para transportar para Lisboa e Porto.
"Dom António Miguens da Fonseca, primeiro Presidente da Câmara de Coimbra, ao tempo, com a premonição do que poderia vir a suceder quanto aos bens móveis do Mosteiro de Santa Cruz propõe, na reunião da Câmara de 31 de Maio de 1834 que se representa-se à Rainha, no sentido de se recolherem na Universidade, os livros, quadros e outros objectos preciosos que merecessem a atenção pública e que havia sido abandonados nos conventos". Parece que não foi grande a consideração tida no Paço Real, quanto ao assunto, "já que se seguiram roubos de preciosidades, tão numerosos, perante a passividade dos políticos da cidade, então responsáveis, que parece se ter entendeu que a Cidade, por ter sido adversa ao liberalismo, merecia aquele castigo".
Assim o assalto ao bens de Santa Cruz foi generalizado, tendo o Arquivo documental sido "desviado de Coimbra para mais de uma biblioteca do país", a sua opulenta livraria saqueada e "vendida ao desbarato e a olho para um antiquário francês, quando não vendidos a avulso os livros dos depósitos onde foram recolhidos".
A opulência do medieval Mosteiro conimbricense viu-se assim desbaratada do seu património que incluía, para além da sua livraria medieval, inúmeros instrumentos de culto (cruzes processionais, relicários, lampadários, que na sua maioria foram desviadas para "e que hoje podem ser apreciadas em alguns dos museus de Lisboa"). As pinturas que ostentava, assinadas por "Lucas de Leyden, Barocchio, Carrachio, César de Arpino, João Bautista Guali e até um Brueghel, seguiram para o Porto, e o que foi pior, dali para Inglaterra, como relata Joaquim Martins de Carvalho, no seu O Conimbricense de 10.1.1893, 15.2 1893.
Seabra de Albuquerque(1), como refere A. Carneiro da Silva, viria a deixar minuciosa descrição dos bens transportados daqui para a cidade do Porto, "só que não sabia que eles apareceram para venda no catálogo londrino, e teriam ido enriquecer as paredes de algumas casas nobres inglesas". Espoliados os quadros, esvaziados os armários "de paramentos, perante a passividade geral, a Câmara, muitos anos depois, em 27 de Agosto de 1863, escreve ao rei pedindo que à cidade fossem restituídos os quadros, jóias e móveis que dos Colégios e Conventos tinham sido arrancados em 1834". Tarde de demais a diligência, dado que o destino da sua maioria "não era de todo identificável" e porque muitas das instituições que os haviam recebido "entendiam que deles não deviam largar mão".

Notas:
Transcrições que se encontram entre comas, foram retiradas de Arquivo Coimbrão, Boletim da Biblioteca Municipal, vol XXXI-XXXII, Coimbra, Coimbra Editora, 1990, in Notas para a história envolvente do Mosteiro de Santa Cruz, Silva, A. Carneiro, pp. 1-40.
(1) António Maria Seabra de Albuquerque nasceu em Coimbra em 1820. Empregado da Imprensa da Universidade, sócio do Instituto de Coimbra e membro de diversas corporações literárias nacionais e estrangeiras, distinguido com a Ordem de Cristo e Isabel-a-Católica em Espanha. Diccionário Bibliográfico Portuguez de Innocencio Francisco da Silva e Brito Aranha vol. VIII, p. 249, vol. XX, p. 254.

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