Prosas vadias

Da vida da poesia


 


 


CANÇÃO DE UMA SOMBRA

Ai, se não fosse a névoa da manhã

E a velhinha janela onde me vou

Debruçar para ouvir a voz das cousas,

Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava

E como nós, cantava e que secou ...

E este sol que eu comungo, de joelhos,

Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama

Os aspectos à Vida, e se infiltrou,

Como fluido mágico, em meu ser,

Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;

E se não fosse o vento que embalou

Meu coração e as nuvens nos seus braços

Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa

Que meus olhos de sombras povoou

E de vozes sombrias meus ouvidos,

Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio

Que ergue as asas e sobe em claro voo;

Sem estes ermos montes e arvoredos

Eu não era o que sou.


Teixeira de Pascoaes

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