Prosas vadias

Embirração


Manhã cedo. Nem o cafezinho obrigatório tinha sido ainda consumido quando nisto, logo de manhã, de manhã muito cedo, a caminho de mais um dia, deparo-me com  a habitual carrinha do senhor que distribui os jornais e revistas estacionada na rua estreita muito encostada e um carro, que o senhor da distribuição tentava orientar pelo espaço que sobrava, que nem era muito exíguo, de forma a que o condutor conseguisse avançar. Mas  aquele não andava. Nem para a frente, sentido que ali é obrigatório, nem para trás, que é sentido desaconselhado. Deve ter dito ao senhor que esperava. O senhor começou a atirar com os jornais e com as revistas para o chão. Parecia pensar que o dia começava mal. E o carro continuava parado. À espera. Ninguém sabia de quê. Nem o senhor dos jornais que lá ia pela rua fora com um enorme fardo de jornais às costas. Apitei. Atrás de mim mais dois condutores apitaram e nada. Saí do carro. A senhora tinha a janela aberta. Perguntei qual era o problema e responderam-me imediatamente para me meter na minha vida. Logo de manhã. Na minha vida. Mas era precisamente à minha vida que eu pretendia ir.  Percebi que a senhora estava no centro do seu mundo e que o resto do mundo rodava em torno do sol, que era ela. Resolvi ser mal educado e pus-me a fazer perguntas. Resolvi desconfiar da carta de condução da senhora. Fez-me impressão porque é que um Peugeot 106 não passava por aquele espaço. Que raio. Perguntei se deveria chamar a polícia, porque se a senhora achava que eu não me devia meter na vida dela porque é que ela  se estava a tentar meter na vida do distribuidor, na minha e na de mais duas pessoas que se encontravam nos carros atrás. A senhora arrancou. Afinal passava. Passou a senhora, o carro, pela passagem que minutos antes era demasiado estreita. O ar da senhora era o de quem tinha o dia estragado. mas isso era o menos. Pareceu-me antes que levava enfiado um foguete num local que até vem a despropósito nesta crónica.


Até amanhã.

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