Acabei de fazer 48 anos. Poderia ser um outro número qualquer. Mas não. Nunca guardei nostalgias. Avanço. Espera-me apenas o futuro. Com toda a carga que a palavra evoca. Conto com aqueles que me são chegados e isso me basta. Pergunto-me se ainda tenho sonhos pueris. Tenho. Também, tenho. Alguns acompanham-me desde a adolescência, que foi à dias, lá atrás. Entretenho-me a revisitar o passado como quem penetra um museu de figuras de cera. Eu próprio estou lá. Em várias ocasiões. Aquelas que a memória permite. Mais visíveis umas. As mais chegadas. Enquanto outras se enovelam, de tal forma, que as não enxergo, como quem alisa a terra com o arado e as sepulta. Fiz montes de dez anos. Inventei uma cronologia para uma vida breve. Soltei uma gargalhada perante a finitude. Ainda não descobri grandes entraves à continuação. A existirem, a morte se encarregará de os vencer. A minha idade mental não coincide propriamente com a idade formal. Coisa que nem sequer renego. Não vale a pena. Existe entre ambas a convivência salutar. Nunca deixarei de ser um menino com uma caixa de música cá dentro. E solto palavras, pequenas frases, revolucionárias, descobertas ao acaso dos meus passos vadios, que dizem: "Profiter de chaque instant, sourire interieurement, accepter le changement, faire confiance à la vie, être joyeux, remercier, ouvrir son coeur…". Existe algo mais pueril que isto?
Inventário
Publicado 16-09-2009
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