«Portugal só será um país verdadeiramente moderno se for um país com memória». A frase surge e ecoa. Sem dúvida. Aplauda-se demoradamente. Rimar memória com modernidade. Entenda-se.
Mel por exemplo para o sector do turismo, necessitado de novos rumos, para além de campos de golfe e de uma hotelaria rendida ao charme. Referi à tempos a questão das pousadas e da recuperação do património com fins culturais nessa constante busca de públicos que interagem com a memória cultural local ou nacional. Embora o acesso se coadune a um público elitista, marca que lhes permite distinguirem-se. Sem esse apelo, sem essa característica intrínseca, tal público afasta-se. A muitos não lhe interessa a memória, mas o que a memória lhes pode proporcionar enquanto marca de distinção do vulgo.
O "problema da memorização" é pois vasto e transversal. Mas o que aqui nos transportou é a questão em torno da utilização e da utilidade de um discurso que apela à necessidade da memória. De memória histórica subentenda-se. Em determinados momentos ou em determinadas ocasiões. Leitura de um discurso que surge sempre na retaguarda do/dos discurso/os do poder, central ou local, necessidade longamente enfatizada no decurso do último século em Portugal.
Quando é dito e escutado por público com pouca memória, no qual a memória pode estar (quase sempre está) deveras e apenas dominada, contaminada pelo registo oficial, dito e escrito, controlado, relembro o imponente revisionismo histórico do conimbricense João Ameal , uma memória, mesmo que poucos tenham dela memória. Continuando apetece, assim de repente, invocar da utilidade da Grande Exposição do Mundo Português de 1940. Perguntando para que é que esta serviu? Inculcar memória, servindo-se de uma memória fabricada, podada aqui e ali, expulsas as excrescências revolucionárias do século XIX, declaradamente abominadas pelos mentores e apoiantes de uma nova leitura, ou reescrita da história, da memória, para consumo interno. Eis para que pode eventualmente servir o apelo à necessidade de um "país com memória" ainda para mais quando essa memória representa um país moderno. Sejamos pois modernos. O discurso humanista agradece. Tão despejado de cátedras.
Embora o recurso seja quase sempre uma moeda. Não apenas olhada do ponto de vista de objecto de troca, mas enquanto objecto de duas faces. Embora a memória seja um poliedro, tal como o real, uma moeda não o parece. Memória não tem duas faces. Apelar a um país com uma memória moderna pode desencadear reacções pouco consentâneas com a realidade que se pretende afirmar. Não utilizemos a memória como objecto ou moeda do imediato. O recurso ao apelo à memória implica consequências no modelo actual de sociedade. Sejamos seculares quando nada entendemos de religião. Ou modestos quando se enfatiza a memória. Fizemos o contrário do que acabámos de escrever. Deixámo-nos de modéstia.
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