Prosas vadias

Nem tudo


 


o que vem na rede é peixe. Precisamente. Observo leigos a perorarem sobre assunto que desconhecem. As reivindicações do sector pesqueiro nacional, a reboque da propalada crise petrolífera são, embora saibamos que ao mínimo recuo do Estado, a vitória será cantada pela certa, desajustadas e pouco correctas pelas exigências apresentadas. Sector estratégico nacional que vive, até à exaustão, dos subsídios europeus e do Orçamento. Repare-se nas benesses que o sector absorve e o que através destas tem desenvolvido. O preço a que as empresas de pesca pagam o combustível, a destrinça imposta através da coloração do combustível subsidiado, que tanto servia para fazer mover  as embarcações como os carros dos empresários. Mundo com nuances pouco transparentes este, que emerge agora da correnteza das reivindicações provocadas pela crise petrolífera no continente europeu. Fuga ao controle de lota é coisa corriqueira e consabida prática, peixe apressado na rede, sem medida legal de captura, é peixe que, na manhã seguinte, está à venda nos mercados de abastecimento, seguindo caminhos que consubstanciam e alimentam a chamada economia paralela. "Candonga" é prática que alimenta negócio, "totobola" é palavra adaptada a práticas ditas ancestrais. Meio arreigado a modelos e técnicas que passam de geração em geração, pouco dado à inovação, só lentamente tem vindo a absorver a necessidade de modernizar, sendo, como é, palco por excelência do emprego de mão-de-obra pouco dada a qualificações escolares, para se ser pescador não é preciso saber ler, dito comum entre as gentes do mar ainda não há muitos anos. Acredito. Quem saberá fazer um "lais de guia pelo chicote", que os há singelos ou dobrados, melhor do que quem nasceu entre redes, barcos e o enorme mar? Entre fome e miséria que a classe  piscatória ainda, e de certo modo, espelha.  Embora já não seja bem assim. Foi. Hoje já não por razões puramente económicas. Daí  que a comiseração com  que muitos falam sobre os pescadores seja apenas o débito  de "postas de pescada" sobre um mundo e uma classe profissional sobre a qual pouco ou nada sabem, sobre a qual nada entendem. Embora seja sempre o "mexilhão" a sofrer as agruras da ondulação. O que não é o caso dos empresários do sector.


 


Foto de Rodrigo Campos.

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