foto: João Viana (clicar permite ver como deve de ser)
Gostei da prosa, com um certo travo a neo-realismo, de Tomás Vasques. Embora reconheça que o sentido da escrita, da boa escrita, é eterno, e esta seja quase rara, estas, as palavras escritas por Tomás Vasques, por serem neo-realistas, não coincidem, no momento em que rabisco estas palavras, com a realidade portuária. Apelam à memória de uns quantos. Os que viveram imersos nela. Os portos hoje, de forma genérica, não se compadecem com as técnicas poéticas do neo-realismo. Estão muito mais voltados para um tipo de literatura com raizes no absurdo. O movimento hoje condensa-se inscrito em milhares, muitos milhões, de euros. Ambos sabemos isso, eu e o Tomás Vasques. De trabalhadores eventuais, que já não frequentam tabernas, porque agora praticantes de trial bike, por exemplo (será um aspecto de neo-realismo moderno?). O porto, onde me movimento, onde ele se movimentou, continua a ter trabalhadores que olham o futuro com pouca confiança, (assunto neo-realista) com direitos a serem constantemente alienados (motivo neo-realista) em nome de uma produtividade insana, marcado por uma regulação de trabalho enviesada em direcção única. A dos patrões (ambiente neo-realista). A actual precariedade, a inexistência de condições de salubridade e higiene, os atentados ambientais, que colocam a saúde dos que nele trabalham em risco, fazem parte do dia-a-dia dos trabalhadores portuários. Mudaram-se mentalidades, o espaços físico das instalações portuárias estão permanentemente em reconfiguração, até a socialização é agora de outro tipo. O neo-realismo esse continua apenas nas relações de trabalho. De acordo. Mas até esse "anátema" marxista continua hoje ao nível da subserviência ao capital (tirada neo-realista). Parece que sempre foi assim. A realidade portuária nacional, por conjuntura, profundamente arreigada nos grandes meios urbanos carreou, para a cidade grande, Lisboa, os campónios que mendigavam trabalho no Portugal rural do Estado Novo. Ide observar a proveniência desses trabalhadores, se quereis saber. Trabalho escravo, nessa época, se quereis saber. Estes transportaram para a grande cidade usos e costumes da ruralidade, ancestral. Hoje tudo isso faz parte da prosa neo-realista, passou, arrastadas pelo efeito da maré da transformação mental e social do país. Actualmente a liberalização do sector criou novos senhores e novos servos da gleba. Quanto aos contentores, na Rocha Conde de Óbidos, fazem-me recordar (em prosa realista) aqueles milhares de caixotes, estacionados junto da ex- FIL, nos tempos da forçada e inquestionável retornança. O espectáculo era deprimente, mas necessário. O espectáculo dos contentores é deprimente. Sem dúvida. Mas necessário. Ali ou em qualquer lugar. Só quem não acompanha a realidade portuária pode esquecer que este é um sector que está permanentemente em mudança. São organismos em contínua mutação. Indução obtida por duas décadas de experiência e por aqueles que se movimentam no seu interior. Em determinadas ocasiões estas (as mudanças) são bem conduzidas, noutras mal. Estando dependentes daqueles que nelas intervém, da sensibilidade pessoal e do conhecimento (know-wow, em liguagem absurda) da realidade portuária no particular, das implicações no meio ambiente e na urbe, meio onde interfere e interage, de forma profunda, com a vivência das populações. Se me perguntarem se é possível outra localização, respondo, que, com todas as possibilidades técnicas actuais, tal é possível e até desejável. Quando se verificar o bloqueamento das futuras(?) instalações, que fazer então? O que essa outra localização acarreta não entra nas contas da entidade promotora. Mas, esse é um outro assunto. E se eles almoçam em restaurantes caros, eu como onde me apetece. Depende dos dias,
das marés e do dinheiro disponível. Uns dias como sapato, noutro sapateira. Mas onde é que eu ouvi isto?