Avanço pela ex-Nacional 1 (desconheço a sua designação actual), em direcção a Coimbra e deparo com a enorme mole humana, que de norte avança, berma fora, todos, invariavelmente, vestidos de coletes fluorescentes, em direcção a Fátima. A data de 13 de Maio, para além da quantidade de indivíduos, de ambos os sexos e idades, que coloca em movimento em direcção ao santuário mariano português, sendo a fé algo inatacável, está a transformar-se num fenómeno pagão, fetichista (os coletes desempenham esse papel), cuja adesão parece fazer parte da nossa crónica de brandos costumes, na qual somos povo afortunado. Fazendo parte da diminuta legião dos que seguem, por outras vias, o caminho da vida, congratulo-me por não necessitar sacrificar nem os pés, nem as pernas (nem a bolsa) a este extenuante ritual anual. Porque é disso que se trata. De sacrifício, de ritual, a que esta gente se predispõe, por razões de foro intimo, com toda a certeza, a calcorrear algumas dezenas, centenas (?) de quilómetros até alcançar o desejado epilogo. Mas o que me admira, no meio desta deslocação linfática de massas, são as fórmulas modernas com se tenta minimizar o sofrimento que o andar a pé, durante horas seguidas provoca. Reparei, por acaso, que no entanto, na actualidade, é mais fácil o sacrifício a que estes peregrinos contemporâneos se submetem. Um destes dias reparei que uma andante ia falando ao telemóvel. Provavelmente para casa, destinando o jantar. Provavelmente. Fiquei desconfiado. São ínvios os caminhos que levam ao santuário. Reparei que outros procuram levar a casa, literalmente, consigo, tentando recriar o seu quotidiano durante a deslocação. Assim olhamos e descortinamos uma família inteira, uns a pé, outros de furgoneta (como se ousa dizer), de marca alemã, de tudo ataviadas, que longa é a jornada. Poderia alvitrar mais, mas paro por aqui. Lembrei-me que ao pedir sacrifícios ao bom povo português, o primeiro-ministro esqueceu-se de reduzir a despesa pública. Com a Presidência da União (Europeia, claro) gastou qualquer coisa como sessenta e sete milhões de euros, mais seis, que o previsto. A bem da representação da Nação. A nação, que a pé, se desloca até a um santuário, perto de si. Rezai por nós. Só o grande pensador da Contra-Reforma, João César das Neves, poderia explicar tão pouco católico comportamento. Mas não me parece.
Peregrinar
Publicado 11-05-2008
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