Poderia começar de forma jocosa o textículo de hoje (não, de facto a palavra ainda não existe) dai que seria um ASAE (esta também não é uma palavra) ter que escrever em entrelinhas. Um princípio pouco saudável, tão pouco saudável como a falta de proporcionalidade na aplicação da lei. É que a questão de hoje gira em torno da aplicação da lei - reduzida aqui a mitos muito simples como os da utilização dos galheteiros, da venda de castanhas em papel de jornal ou impresso (onde a intervenção da empresa da Lista Telefónica, fornecendo aos vendedores papel higienizado, me deu imenso gozo), dos odiosos copos de plástico, dos copos da ginginha lavados num alguidar de plástico (um verdadeiro horror, para quando as ginjas transgénicas?), do bolo-rei com ou sem, das bolas-de-Berlim- exige proporcionalidade, bom senso e sensibilidade. A aplicação de um untuoso modelo social europeu chega em forma de lei. Uma lei, a sua existência, a sua mera existência, que pode vir a desencadear fenómenos anómalos. Observemos, imaginemos, quando um dia um governo mais solícito ordene que sejam obedecidas todas as leis que existam nos nossos códigos! Sem se aperceber e sem querer o mais displicente, o mais incauto cidadão veria - no espaço de um simples esfregar de um olho - a sua vida virada do avesso.
Não exagero. Vejamos, a titulo exemplificativo, dois AZARES recentes e seguidos da prática desproporcional da aplicação das leis: o encerramento de uma mercearia em Faro, mercearia essa que, dentro de dias ,festejaria o seu centenário. Foi impedida de o fazer por ter sido encerrada "por falta de condições técnico-funcionais e de higiene" conforme relata a imprensa diária, de ontem. Aberta em 1908, foi mandada "pintar os móveis de origem com a cor original, proteger o chão com um material anti-derrapante e colocar um tecto falso" em 2008, uns requisitos banais que o organismo público evidenciou para que a a centenária mercearia "Aliança", em Faro, possa voltar a reabrir o negócio, embora de centenária já pouco ou nada tenha. Apenas a memória. Ora um AZAR nunca vem só, não, eles chegam em bando, diria o Zeca "e comem tudo", mas eu não digo. Digo apenas que novamente em Faro, e para meu mui espanto, um dos três cafés mais antigos do país - a par do Magestic, no Porto, do Santa Cruz, em Coimbra e da Brasileira em Lisboa, o café "Aliança", local de sociabilidade em Faro, viu a sua actividade interrompida por dá aquele galheteiro, ou seja falta de higiene. A deriva higienista que atravessamos começa a colocar em causa até a própria história dos locais. Apetece escrever: "Saiam um par de galheteiros pró AZAE" . É muito AZAE junto! Este país é um colosso ou não?
Recorremos a uma foto do José Vilhena, recolhida na Tabacaria da Esquina. Só metade da prancha feita pelo autor, não queremos de modo alguma ofender as mentalidades deste país colossal!
