Prosas vadias

Um velho abandono




Utilizador do S.N.S. por estes dias, permaneci durante quase um dia num estabelecimento hospitalar da cidade. Tive, por isso, tempo para observar algumas das realidades que atravessam o quotidiano de uma instituição  hospitalar. Uma das realidades que mais choca foi o abandono a que votamos os nossos velhos. Assim mesmo velhos, não tenho interesse algum em chamar-lhes idosos ou qualquer outra palavra politicamente mais correcta. Envelhecemos, todos. Dai velhos. Para ali abandonados à doença, à velhice, à morte ou à vida. Por muito profissionais que os trabalhadores hospitalares sejam fez-me enorme confusão ter estado rodeado por quatro macas, onde permaneciam alguns velhos, abandonados, num pequeno e esconso corredor daquele hospital. Perpassaram as imagens infantis das urgências de um Hospital de S. José em finais do anos sessenta onde tudo era decrépito. As imagens da minha meninice passadas junto do meu pai, no banco de urgência de Santa Maria, onde então trabalhava. Ficaram-me as imagens de miséria que aqueles rostos transportavam consigo. As mais desvairadas gentes compõem este álbum de retratos, coleccionado nessa época. As cenas de desespero que muitas vezes presenciei marcaram-me de tal forma que hoje regressaram por momentos. Pareceram-me impossíveis, quase surreais passados trinta e tal anos. Mas não. Sempre entre a vida e a morte as imagens do abandono repetiam-se. Comno se fosse possível rever o passado.


Desta vez, só eu não estava abandonado. Ficarei para sempre grato pela TUA companhia. Sendo ali o único que poderia exprimir e expressar opinião, sobre a desagradável cena que se desenrolava perante os meus olhos, fi-lo com a veemência que todos os que me conhecem (que são poucos) sabem ser apanágio pessoal. Saiu de forma inaudita, quase furiosa, embora controlada, tentando apelar para o desumano de toda aquela imagem e situação. Retiram-me a mim do local. Foi nesse preciso momento que senti a acompanhar-me a enorme solidão daqueles velhos. Venho aqui deixa-la. Para que me não esqueça. Para que nos recorde algo que não pode e não deve continuar a acontecer. Tenham então um bom dia.

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