Camilo Castelo Branco, um quase desconhecido escritor português, esteve preso, por via de factos que agora aqui não interessa esmiuçar. Dá entrada na Cadeia da Relação do Porto no dia 1 de Outubro de 1860. Preso, nem assim a pena deixou de preencher o recato das horas de clausura, de certo, e de quase certo, que o homem não sabia exercer outro mester manual que o de verter no papel, palavras, que depois vendia. Embora arte que pouco lhe rendia, embora trabalhasse como desalmado.São sua pertença algumas das mais sábias palavras que a nossa literatura produziu. Alguns dirão que é exagero. Exagero de amador. E porque não. Mestre Camilo, porque mestre é aquele com quem se aprende, a quem se pede que apenas deixe ouvir as palavras para saber, apostado em apostilar o que os corredores de uma prisão portuguesa do século XIX, exalavam de infecto, deixando registo dessas memórias. Se são verdade, não o sabemos. A arte de Camilo era essa, iludir para desmascarar. A páginas tantas...
"Estava lá outro preso , menos santo, mas muito mais inocente, condenado em quinze anos de degredo para Cabo Verde. Era o senhor Gouveia, do concelho de Armamar. Fora regedor na sua terra, negociante e proprietário. O funcionalismo administrativo fez-lhe tomar pendor em partidos, e distinguir-se por seu zelo em lutas eleitorais. Numa dessas crises da urna, que algum tempo foram verdadeiras calamidades de rancor fratricidas, o senhor Gouveia foi falsamente indiciado numa tentativa de morte, julgado e sentenciado em três anos de prisão. O Ministério Público agravou, e a parte também. Era a parte um sujeito rico, abalizado entre os poderosos, e caprichoso no inteiro perdimento do inimigo político. O processo, examinado pelos juízes da Relação, deu em resultado a confirmação da pena; porém, o juiz, relator, quando o acórdão já estava em poder do escrivão, chamou a si os feitos, rasgou a lauda em que lavrara o acordão, e lavrou de novo outro, alterando a pena a quinze anos de degredo. A este tempo já as testemunhas que tinham jurado contra o senhor Gouveia estavam condenadas a galés, por terem jurado falso. Pensava o preso que, aduzida tão significatica prova da sua inocência, o Supremo Tribunal de justiça anularia o processo. Nem assim. A última instância negou-lhe provimento. Gouveia foi para o desterro, depois de cinco anos de cárcere, completa perda de seus haveres, e trinta e oito anos de idade, com os cabelos todos brancos."
Memórias do Cárcere, Camilo Castelo Branco