Prosas vadias

Vidas "à la minuta"


Hoje embarcámos nesta busca incessante dos nossos momentos "à la minuta". Momentos, de encantamento dos sentidos, que, sem nos darmos conta, nos procurou a atenção. Dessa forma se percorre os jornais, livros, televisões, a vida, que corre mesmo ao nosso lado. Procuram-se instantes. Instantes que preencham a nossa desenfreada falta de tempo para desfrutarmos do tempo. Como se este apenas exista na estranha confluência de mostradores e ponteiros. Produto do tempo, esta nossa falta de tempo. Procura-se descortinar a imediata velocidade e para-la. Para conseguir apreender-lhe as profundidades, as estéticas do discurso, das ideias, dos sonhos. Sem o tempo, nada feito. O espírito não se encontra na imediatez, apenas no remanso das nossas múltiplas solidões damos por ele. Os fotógrafos "à la minuta" preenchem uma parte do meu pessoal imaginário de adolescente, o infantil ainda está nas arcas da memória, descortinável apenas em forma de avulso. Um dia chegará. Como o correr das águas de um rio, desaguando no fim do tempo. Sei-o.
Não venho processar velhas tecnologias versus novas tecnologias, apenas me entretenho. A brincar com o tempo, com a memória. Um dia,não muito distante, aparecemos junto de um cavalo de cartão.
A extinção do antigo nunca nos pareceu algo irresolúvel. Não. Porque a memória ressuscita. Aqui e ali velhas palavras, tecnologias, misturando-as com novas. Eis um processo. Este, que agora estais vendo com os vossos olhos. A velha procura incessante do espírito, na junção do novo. O processo fotográfico da câmara escura democratizaria a fotografia. Sem o fingimento do estúdio. Processo quase artesanal, do foro do miraculoso, aos olhos da nossa infância. Ainda hoje dai decorre. A eternidade de um momento, estava ali à mão. Semente do que havia de vir. Minuto que acabará por se eternizar no tempo, detendo-o assim. Tal como está. Tempus fugit.
Até no papel.

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